terça-feira, 22 de agosto de 2017

Um poema sobre coisas tristes e desumanas

Acredito que há dois tipos de Homo sapiens
os humanos e os desumanos  
Há aqueles que amam o próximo
São os humanos
Há os que odeiam o próximo
São os desumanos
Sim, humanos amam de forma centrífuga
indiferente do credo, da cor, 
da opção sexual, da situação financeira 
ou qualquer outro processo existente
inerente ao ser Humano, 
E os desumanos?
Ora ora ora, amam a si mesmos
E só a si e aos seus e mais ninguém.
Desamam centripetamente
Que não mais os nomeemos Racistas 
(eles adoram, amam serem racistas), 
vão para o raio que os parta 
são desumanos, insensíveis ao mundo
são outra coisa diferente da Humanidade
Pois não têm a humanidade em si. 
Chafurdam como porcos, 
e só isto que são - porcos
e que não mais ofereçamos pérolas a estes porcos.

É isto aí!

E as instituições? Tá Tudo Dominado

domingo, 20 de agosto de 2017

Ninguém volta ao que nunca teve

Naquele dia, que poderia ser apenas mais um dia na repartição pública, deu de ler o horóscopo, coisa que não fez sistematicamente durante toda a vida. Leu que seu signo estava Ascendente em Áries, o que lhe proporcionaria capacidade de realização, independência, coragem, energia, agressividade, competitividade, impulsividade.

Logo adiante estava escrito que Sol também estava em Áries, de onde concluía a astróloga que sua missão seria a de um pioneiro, com muita iniciativa, independência, coragem, impaciência, precipitação e agressividade.

No final, já emocionado, leu que  Lua em Áries o deixaria emocionalmente agressivo, com extrema necessidade de independência e iniciativa.

Levantou lentamente e cheio de si olhou pela primeira vez com uma coragem desconhecida para a imensa e vazia solidão à sua volta, tocou-se para cientificar-se da sua existência e se encontrar ainda vivo no meio daquele deserto árido da sua nulidade diante o mundo. Fez a mala, vestiu uma roupa simples, calçou um sapato velho, e partiu para a conquista da sua liberdade e da felicidade perdida. Nunca mais voltou, ninguém o procurou, não havia a quem dar notícias e viveu infeliz para sempre em busca do tempo perdido em lugar nenhum.

É isto aí!

sábado, 19 de agosto de 2017

domingo, 13 de agosto de 2017

O que eu gosto do teu corpo (Julio Cortázar)

O que eu gosto do teu corpo é o sexo.
O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.

O escritor argentino Júlio Cortázar (1914-1984) é considerado um dos autores mais inovadores e originais de seu tempo, mestre do conto curto e da prosa poética, comparável a Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe. 

Li e conheci este poema no Blog do Itarcio

sábado, 12 de agosto de 2017

Eu encontrei o amor dos meus sonhos

Rezou a noite toda pedindo a graça. Chorou, implorou, fez o Ofício de Nossa Senhora pelo menos umas três vezes, rezou o rosário com os quatro mistérios, fez a ladainha de São José, fez a Ladainha de Nossa Senhora, clamou em voz alta os salmos 28; 35 e 57. Explicou detalhadamente a cada santo, a cada anjo, a cada arcanjo, ao menino Jesus, a Deus, a Jesus Ressuscitado, enfim, deu todas as coordenadas para encontrar a sua cara metade.

As pernas já estavam dormentes, as câimbras iam e vinham, e ele ali, no sentido que achava reto. Era agora ou nunca, o o céu dava o que queria ou estaria com muita má vontade. Fez a campanha do quilo da Conferência São Vicente de Paulo, participou de cinco missas na semana, todas às seis da manhã, fez boas ações, ajudou idosos, visitou hospitais, foi nos asilos, nas creches, distribui sorrisos e palavras de consolo, enfim fez todas as bem-aventuranças que conhecia.

Sete horas da manhã, mal se aguentando pela dor nas pernas refletindo na coluna, tomou um banho frio, intenso, sem dar um gemido, pois fazia parte da conclusão da penitência. Tomou dois copos de água benta, benzeu-se três vezes antes de cada gole. Glorificava o Altíssimo, dava graças à vida e sentiu-se finalmente fortalecido. Vestiu o terno de cambraia azul claro, por sobre uma camisa gelo e uma gravata borboleta de azul marinho com minúsculas bolinhas também em tom gelo. Calçou o sapato social de verniz preto sobre uma meia preta e saiu sem olhar para trás.

Na porta lembrou-se de escovar os dentes. Voltou ao banheiro, retirou o paletó, as botoaduras de prata, desabotoou os dois botões do punho e dobrou parcimoniosamente a manga da camisa e caprichou na higiene bucal como nunca fizera antes, utilizando um dentifrício branqueador dessensibilizante. Reconstituiu-se e saiu à porta. A barriga fez um movimento conhecido, e era fiel ao horário. Foi ao quarto, retirou toda a roupa, peça por peça, colocando em cabides postados numa arara entre dois suportes da parede. Nu, voltou ao banheiro. Sentiu a necessidade de ler algo, travou a vontade e correu na sala, escolhendo Os Miseráveis, achou grosso demais, desistiu, o travamento estava estuporando, pegou um fininho, de contos machadianos e correu ao vaso.

Vitorioso e aliviado pela obra, dirigiu-se ao banho novamente, pois era de costume banhar-se após a batalha naval em águas profundas de vasos comunicantes. Enxugou calmamente, foi ao quarto, sentou-se à cama, e enxugou em detalhes ritualísticos e anatômicos, os pés. Findo o processo, revestiu o terno de cambraia azul, mas não gostou da gravata. Trocou-a por uma longa, clássica, vermelha com diagonais azuis escuras, e aquilo pedia uma camisa creme. Trocou a camisa, colocou a gravata, vestiu a calça, o paletó, prendeu o suspensório, afivelou o cinto e saiu à rua. Lembrou-se de que não havia se barbeado.

Retornou à casa, foi ao quarto, tirou toda a roupa, foi ao banheiro, ligou o chuveiro elétrico, aguardou a água superaquecer, ensopou uma toalha com aquela calda quente e colocou sobre o rosto, com um gemido contido e uma expressão de dor. Aguardou 6 minutos e 18 segundos, vigiado no relógio do corredor, estrategicamente de frente para a porta. Fechou a janela e a porta do banheiro para não pegar ar frio, retirou lentamente a toalha, passou um creme de barbear importado mentolado, e solenemente, quase em êxtase, escanhoou a face para que ficasse glabra, definitivamente glabra ao toque suave das suas mãos. Ao fim passou uma loção de hamamelis refrescante que inibia infecção e promovia coagulação rápida dos pequenos vasos sanguíneos atingidos.

Voltou ao quarto, e desejou trocar a camisa para uma vermelha, achou mais jovial, e a gravata deveria então ser fina e longa em tons pasteis. Deu um laço inglês perfeito, vestiu a calça, as meias, o sapato de verniz, o suspensório e então deu-se pela necessidade do colete. Colocou-o, Abotoou os punhos da camisa, colocou abotoaduras douradas combinando com o alfinete da gravata, ajeitou o cinto, vestiu o paletó e ao olhar o relógio no pulso, percebeu que ainda não o colocara. Abriu a segunda gaveta do lado esquerdo da cômoda, escolheu o relógio folheado a ouro, herança do avô, com pulseira corrente maciça também banhada em ouro.

Olhou para o relógio do avô e percebeu que estava sem os óculos, guardados cuidadosamente em estojo herdado do pai, visto que a armadura também fora herança paterna. Estava atrasado, pensou. Chegou à porta e percebeu uma fina garoa sobre a nublada cidade. Voltou, vestiu um sobretudo impermeável, britânico, bem como o guarda-chuva longo e colocou o chapéu panamá de enorme valor passional.

Ao chegar na calçada, não se lembrava do lugar, das casas, das pessoas, da rua, nem da sua própria personalidade. Manteve a calma, respirou fundo. Viu uma moça linda, do outro lado da rua, também com olhar perdido, sob uma sombrinha e uma capa floral, por sobre um elegante vestido rendado. Ela também o viu, acenou com leveza imperial e foi ao seu encontro. Foram se aproximando, se aproximando, se aproximando, até que o espaço entre os dois deixou de existir e passasse a ser o espaço entre suas vidas. 

Estou sonhando, perguntou ele?
Sim, estamos sonhando, mas por favor, não acorde, disse a moça quase sussurrando.
E beijaram-se e abraçaram-se e amaram-se e defenestraram o real pelo onírico até que o sonho se deu por satisfeito. 

É isto aí

domingo, 6 de agosto de 2017

Odete, a desputada pudica

Meu museônico Nokia agita no criado mudo. Três horas da manhã. Acordo assustado, macambuzio, depois de uma noite de queijos e vinhos (devido à crise houve pequena alteração, na ordem - queijo frescal e suco de uva integral). Do outro lado da célula está Odete, a desputada pudica de Brasília.

Reza a lenda que nos idos do verde-oliva, Odete com o mandato de desputada biônica tinha livre trânsito pelo imenso salão verde da Câmara, onde seduzia com  apenas com um discreto olhar e voluptuoso decote os delirantes e devotos velhinhos congressistas , levando-os ás cegas para os badaladíssimos points Kako e Shalako ao som erótico de Donna Summer, Diana Ross, Gloria Gaynor, Barry White, ABBA e, claro, Bee Gees onde tudo se resolvia, se consumia e se fazia em nome da ordem e do progresso.

- Odete, puxa vida, que alegria receber uma chamada sua ...

- Amore, alegre fico euzinha se você vier para Brasília, vem amor me ter em Brasília em nome dos velhos tempos ...

- Uau, Odete, falando assim desta maneira fico até querendo votar em quem você mandar.

- Vota em mim, amore, deposita logo este voto na minha urna e me eleja sua...

- Caramba, Odete, estou sem palavras ... mas além desta volúpia envolvente, o que mais a trouxe aos meus ouvidos.

- Amore, como sabe, tudo que conto tem provas, contraprovas, documentos e testemunhas.

- Claro, Odete, nunca duvidei da sua idoneidade.

- Nossa, amore, agora você me tocou, mas bem, outro dia euzinha estava na casa da Beth, sabe, já te falei da Beth?

- Não que me lembre.

- Bobinho, você é que esqueceu. Beth é minha personal trainer ananga-ranga, namoradinha da Condessa Mercy, esposa do Conselheiro Amaral, amante de Creuzinha, uma dançarina meia-boca da Boate Azul, bancada pelo cafetão e Duque de Le Coq, Dom Ery do ramo TroXylon, primo do barão amigo do amigo do amigo do Nestorzinho. Beth me confidenciou em sigilo secreto e absoluto que ouviu da Condessa, que escutou escondida uma conversa telefônica do surdo Conselheiro com a Creuzinha, que tirou esta confidência do insaciável Duque de que Nestorsinho é o cara que controla a pátria amada, junto com mais uma dezena de outros corretores sem voto, mas devotos, se é que me entende.  

- E quem é Nestorzinho, Odete?

- Puxa vida, amore, achei que queria detalhes da ananga-ranga que pretendo explorar junto a você nas noites estreladas do planalto, mas vamos lá - Nestorsinho é um ... digamos assim ... humm... corretor de coisas e atualmente ocupa a 5ª secretaria da 4ª câmara do 3º staff da 2ª coordenadoria do grupo de frente de blindagem e  apoio ao Grande e Poderoso Dom Golpeon, o Velho.

- Corretor de Coisas? Como assim, Odete?

- Credo, amore, hoje está difícil falar com você, pergunta da ananga-ranga, vai, pergunta, vai, pergunta ...

- Isto está cheirando a sacanagem, Odete.

- Ufa, finalmente estamos em sintonia. É da ananga-ranga que você falou, não é amore?

- Não Odete, eu falei deste ... deste, hummm ... corretor de coisas.

- Está bem, está bem. Nestorsinho não aparece e é um corretor, por que esta é a denominação analógica que a famiglia cristã do Paranoá dá ao lugar-tenente que atua como a peça em que gira a roda do moinho de vento. Ninguém vê o corretor do moinho, mas nada acontece sem a presença dele.

- Caramba, Odete, quer dizer então que por trás dos holofotes existem corretores anônimos fazendo a roda girar para onde o vento toca, sem direito a voz e voto popular?

- Ai, delícia!!!! Vem amore, ser o corretor do meu moinho, vem fazer girar a roda da nossa alegria, vem amore me ter em Brasília ...

- Puxa vida, Odete, você falando assim, puxa vida, eu ... eu ... alô? alô? - merda travou a roda do moinho bem na hora que eu ia bater o grão ...

É isto aí!

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Debra Paget in Fritz Lang's epic The Indian Tomb (1959)

Sonho causado pelo voo de uma abelha em torno de uma romã um segundo antes de acordar.

O ruído da abelha provoca aqui a picada do dardo que desperta Gala. Toda biologia criativa surge da romã reinventada. No fundo, o elefante de Bernini leva um obelisco com os atributos papais. (Dalí)

Esta obra possui um pomposo nome, do tamanho do ego do pintor espanhol Salvador Dalí: Sonho causado pelo voo de uma abelha em torno de uma romã um segundo antes de acordar. Foi inspirada num sonho de Gala.

Gala, nua e com os cabelos molhados, é a figura central da composição. Encontra-se levitando sobre uma estrutura rochosa plana, que também levita acima de um mar azul e tranquilo. À sua esquerda, levitam uma romã e duas gotas de água, conforme comprova a sombra das mesmas. É o zumbido da abelha, que provoca o delirante sonho, com imagens que parecem querer agredi-la.

À direita de Gala está uma enorme romã madura, símbolo do erotismo e da paixão, da qual nasce um enorme peixe que, por sua vez, lança para fora dois grandes tigres enfurecidos, símbolo de paixão e violência vital da natureza. À esquerda de tais figuras, um elefante com enormes pernas, desloca-se carregando um obelisco nas costas, que se trata de uma alusão fálica. Para o pintor, esse animal representa a força, a longevidade e a sabedoria. Quase tocando o braço de Gala encontra-se uma baioneta, também simbolizando a abelha que está prestes a picá-la e despertá-la.

Em primeiro plano está uma pequena romã levitando. Sua sombra forma um coração, simbolizando o amor do pintor por sua mulher. Uma abelha voa em torno da romã. Duas sementes da grande romã, à direita de Gala, estão caindo em direção ao mar. Como a romã é o símbolo da Virgem Maria e está relacionada com a fertilidade, Dalí disse se tratar de “biologia criativa”.

Curiosidade
Declaração de Adolf Hitler, 1937, sobre os surrealistas:
“Pintam assim, porque veem as coisas assim, então esses desgraçados deveriam morrer em um departamento do Ministério do Interior, ou ser recolhidos ali para esterilizá-los, a fim de evitar que se propague sua desgraçada herança.”

Ficha técnica
Ano: 1944
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 51 x 41 cm
Localização: Museu Thyssen-Bornemisza, Madri, Espanha

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Aqui jaz ninguém

Eu queria falar do golpista
tão minúsculo  pequenino 
porém  não desejo alongar
nem rebaixar nem incomodar
Por que queria falar do golpista
ninguém é algo tão estranho
quanto é estranho o fulano
o beltrano do mal perpétuo
que não passa de ninguém
um ninguém desprezível
nas histórias de alguém.
Outro lá além se lembrará
das malas dos malas maias
certo refém há de lembrar
da bela e recatada do lar
mas nunca nunca nunca
ninguém será lembrado
pelo que ele significou
não vale as lágrimas
do lapso deste vazio
de uma bola murcha
num canto do campo
será sempre marginal
eu queria falar disto aí
será sempre um bandido
mas não sei falar dos mortos
nem dos adoradores de coisas
de pecados em pilhas de papeis
pois da sua vida canalha e maldita
apenas permitirá à história o epitáfio
aqui jaz ninguém.

É isto aí

A magia da docência

Como aplicar os conceitos básicos de Harry Potter na sala de aula, ou uma pequena contribuição das palavras mágicas de espírito salvífico contra alunos dementadores e equivalentes:

Abaffiato
Abaffiato é um feitiço relacionado à capacidade de audição. 
A finalidade dele é produzir um zumbido no ouvido dos alunos, para impedir que escutem o que é dito por alguém e preste atenção na aula.

Accio
"Accio" é um feitiço Convocatório. É utilizado para atrair as coisas a um professor quando mencionado. Assim não faltarão mais apagadores, pincel, giz, água gelada, as provas, etc.

Estupefaço 
O feitiço "estupefaço" é denominado de Estuporante e consiste no poder do professor em deixar um aluno chato inconsciente por algum tempo.

Expectro Patronum
O Feitiço do Patrono, "Expectro Patronum", conjura um patrono, que é um tipo de energia positiva, composto de felicidade, esperança, vontade de viver, do que o mau aluno se alimenta. Logo, o professor que o conjurou não consegue sentir desesperança, então o mau aluno não consegue afetá-lo.

Expelliarmus
Expelliarmus é um feitiço utilizado para desarmar um aluno (de argumentos ridículos). Quando evocado, ele retira os argumentos ou qualquer outra pergunta ridícula da boca do aluno.

Petrificus Totalus
O feitiço Petrificus Totalus é conhecido como o Feitiço do Corpo Preso.
Quando utilizado, o feitiço tem o poder de petrificar o aluno por um certo período de tempo.

É isto aí!

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Ode ao filho da puta (João Negreiros)


E querem estes filhos da puta que a gente lhes dê ouvidos quando nem temos o que comer
porque os filhos da puta se alambazaram antes de nós e deixaram-nos na toalha uma côdea
porque disseram que não era bom que tivéssemos miolos
e querem estes filhos da puta que confiemos neles e na merda dos fatinhos de pronto a vestir que lhes escolheu a amante ou a mulher enquanto ele a encornava
e querem estes filhos da puta que a gente goste deles quando eles não gostam de nós

os cabrões dizem bem de tudo e mal de todos e vão aos urinóis olhar para a cobra cega uns dos outros
só para ver qual é o que tem mais peçonha
o senhor ministro leva aí um belo instrumento
ó Sousa isto não é nada          mas já agora          sacuda-ma para não me pingar para o fato
e depois fazem um número nas entrevistas do canal cultural em que mostram as fotografias que tiraram na praia numa ilha qualquer miserável do Pacífico
e querem que a gente acredite que eles são humanos só porque andam de fato de banho
grandes filhos da puta
eu queria era que um ciclone desse lá um saltinho e os levasse a todos para o inferno
se bem que o diabo não tem culpa nenhuma porque só está a fazer o trabalho dele e não merece ter que levar com os vossos discursos
ai os discursos
os filhos da puta dos discursos
os discursos dos filhos da puta a dizer que é importante que os grunhos que não sabem ler venham da terrinha para a guerrinha combater lá uns gajos que nem falam português
que um gajo para os matar tem que aprender a ler
e depois ainda tem que aprender a falar estrangeiro
e não é que os filhos da puta mandam a malta para lá sem sequer um curso de línguas
e depois ainda vão ao enterro abraçar os orfãozinhos e comer-lhes os croquetes
e quando a viúva chega a casa e liga a televisão é só paz por uns tempos mas depois
quando o coveiro começa a ganhar o fôlego
trata de comprar mais uma carrada de F17 que se vendem à grosa
mas para os países de terceiro mundo até pode ser avulso
e lá vão mais uns provincianos da terra p’rá guerra
e morrem sem saber ler nem escrever
e matam sem saber ler nem escrever
e depois quem fica por cá sente aquilo tudo pelos noticiários como se fosse connosco
e quem não tem TV sente pelos GNR com metralhadora à porta das embaixadas
que para nós é um brasileiro a dar toques
mas para os outros é um consolo ou um consulado
e os filhos da puta nem sequer apanham trânsito
nem cheiram o sovaco do autocarro          porque têm batedores que lhes fazem as claras em castelo p’ra que cheguem depressa ao palácio e se alambazem com as natas
e depois são os nossos representantes
esses filhos da puta
que falam como quem se peida
que gritam como quem caga          mandam nesta merda toda
e a liberdade e o genocídio são irmãos gémeos que vestem de igual e que lambem o mesmo chupa-chupa          que é uma terra miserável a nadar em ouro negro
e a gente olha para eles e diz
aquele animal não pode ser o nosso presidente          mas é          o filho da puta é
aquele animal não pode ser o nosso ministro          mas é          o filho da puta é
e é vê-los todos a rir          que quase lhes saem os dentes fora          quando o espectáculo acaba
a gozar com o povinho que anda com eles às costas
e cada vez nos dói mais          mas às vezes parece que não
que quando dizemos que nos dói muito          os que ainda carregam mais que nós dizem que nem é tanto assim          que
agora andamos menos corcundas          mas só me sinto sempre de gatas
e os meus irmãos dizem ser psicológico que antigamente é que era
que isto agora não é nada
dantes é que eles eram mesmo filhos da puta
agora disfarçam bem
e é tudo tão claro
estamos todos tão bem informados que já não há lugar para um bufo como eu
um bufo que denuncia os amigos que não prestam
um bufo que aponta o dedo a quem se deixa matar
um bufo que puxa a língua a quem acha que é melhor estar calado
e eu quero sê-lo para que esses filhos da puta não levem sempre a melhor
assim vão levar quase sempre a melhor
e vão beijar menos órfãos e violar menos viúvas
e na tristeza deles encontro a minha razão de viver
é no espaço que vai da relativa felicidade até à felicidade absoluta de um filho da puta que eu me encontro
e vou ficar lá para sempre a fazer barulho como o sino que lembra ao operário que a hora de almoço chegou
e que ele pode comer
mesmo que não tenha fome
mesmo que não saiba mastigar
mesmo que a marmita que trouxe de casa há séculos atrás lhe pareça uma miragem
mesmo que já não se recorde de quem é
de onde vem
e quanto sofreram seus pais na tortura
na prisão
na pobreza
mesmo que já não tenha ideia dos tempos que já passaram
das pessoas que já não estão
e das almas sem corpo que nos pedem todos os dias baixinho para resistir
resistir mesmo sem forças
sem futuro
e sem lembrar o passado
in "luto lento", de João Negreiros

O texto está mantido no formato original, retirado do blog do autor - João Negreiros

Nariz (poema de Bocage)


Nariz, nariz, e nariz, 
Nariz, que nunca se acaba; 
Nariz, que se ele desaba, 
Fará o mundo infeliz; 
Nariz, que Newton não quis 
Descrever-lhe a diagonal; 
Nariz de massa infernal, 
Que, se o cálculo não erra, 
Posto entre o Sol e a Terra, 
Faria eclipse total! 

Isso é Bocage!

segunda-feira, 31 de julho de 2017

O gado triste e o matadouro da esperança

Do alto da Colina do Bom Senso escuto o lamento dos berrantes e vejo um gado triste, pacífico, de todas as cores e tipos, sendo tocado para o matadouro da esperança.


É isto aí!

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Bem vindos à ditadura

Ela é mulher, Ela é negra, Ela é pobre, Ela é mãe. Mora em Goiânia, no estado de sitio chamado Goiás. Roubou macarrão para os filhos - com fome - num supermercado ...

Dois seguranças agridem, humilham, violentam a a dignidade da mãe em nome da sua lei, a lei que proibe mulheres  negras pobres e mães de se defenderem;