sábado, 21 de outubro de 2017

Papo de Esquina XLI


- Outro dia eu ia falar para um deputado golpista que seu problema não era ser contra a  corrupção.

- E falou tudo?

- Disse que ele é bichinho de estimação da supremacia branca corrupta?

- Não, não disse nada. Deixei prá lá, afinal de contas cobra venenosa é surda ...

É isto aí

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O retorno ao trabalho escravo no Brasil

O retorno ao trabalho escravo no Brasil (ou TEMER, EU TENHO NOJO DE VOCÊ!)

1. Amável Donzela (1788 a 1806)
2. Boa Intenção (1798 a 1802)
3. Brinquedo dos Meninos (1800 a 1826)
4. Caridade (1799 a 1836)
5. Feliz Destino (1818 a 1821)
6. Feliz Dias a Pobrezinhos (1812)
7. Graciosa Vingativa (1840 a 1845)
8. Regeneradora (1823 a 1825)

Estes são alguns nomes, escolhidos propositadamente pela Coroa portuguesa, que batizavam os navios Negreiros que traziam pessoas livres para serem escravizadas no Brasil. Sugiro que Temer proclame como o nome das fazendas dos seus senhores feudais do século XXI

Abaixo a foto real (Marc Ferrez) de um navio negreiro aportado no Rio de Janeiro, esperando autorização para desembarque, em 1882

Fonte: https://www.geledes.org.br/lista-navios-negreiros-cinismo-comerciantes-seres-humanos-oceano-atlantico/



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Não vos vades vós (poemeu)


Não vos vades vós 
Ir-vos-ei
e credes
sê-lo-eis
imputadas
as pechas
de Idiota
Id ota
Ide ota
Ide otário
ao lamber
solitário
a sola
dos pés
do capitão
do mato
que serve
ao diabo
que se
entope
de roubos
e golpes
e deleita
com a
lei maldita
imperfeita
para vós
serdes destruído
no lagar
feito uva
pisando-vos
pé por pé
Idiota
Ide vós
se a sina
da vossa vida
é terdes sempre
aberta uma
mal cheirosa 
e putrefata
ferida
na alma.


É isto aí!


Saudade (Pablo Neruda)

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas a amada já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais... 
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.


Me Gritaron Negra, Victoria Santa Cruz


Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Da Colina do Bom Senso vê-se o Putoscópio


Observadores postados na Colina do Bom Senso do Reino da Pitangueira perceberam o que há de mais moderno em Bananaland, mais especificamente na sua bela capital no planalto central da ré púbica a quem passaram a denominar de Putoscópio de Mala.

Existem outros modelos e variações como putoscópios de agências de encontros, de casas de massagem, de templos salvíficos, de mulheres mal amadas, mas Putoscópio de Mala supera todos, pois é a unificação do conceito.

Segundo estudiosos da Real Academia da Pitangueira, o  Putoscópio da Mala é um dispositivo que consiste num safado suspenso por um suporte formado por três instituições articuladas, com juntas tipo papel moeda modelado. Seu funcionamento baseia-se no princípio da inércia. O eixo em rotação tem um efeito de memória que guarda direção fixa em relação ao círculo máximo, dispensando as coordenadas constitucionais. 

O Putoscópio veio a substituir a Sacanagem Putocrática na navegação visual, surreal e cretina. A navegação visual serve-se de putocompasso e piloto automático, permitindo o voto em condições de visibilidade zero. Nos votos especiais o dispositivo é fundamental para a orientação das espaçoputas.

O Putoscópio consiste essencialmente em uma rodada livre, ou varias rodadas (depende do puto), para girar em qualquer direção e com uma propriedade: opõe-se a qualquer tentativa de mudar sua direção original. Exemplo facilmente observável é que, ao travar a rodada de um putocrata no ar e tentar mudar a direção de seu eixo bruscamente, percebe-se uma enorme reação.

Dessa maneira, o Putoscópio serve como referência de direção, mas não de posição. Ou seja, é possível movimentar um Putoscópio normalmente dentro dos labirintos, saunas e secretos caminhos de Bananaland sem qualquer trabalho além do necessário para transportar sua massa de papel moeda, seus golpes, suas sombras e suas farsas editadas por homens de bem e distribuídas ao deleite de bornais nacionais. 

Há de se considerar sempre que em um Putoscópio autorizado, de linhagem ética e zelosa, a resistência sempre, desde tempos memoriais de Dom João e sua louca amada, surgirá contrária a forças que atuem de maneira a rotacionar seu eixo de rotação a qualquer configuração não paralela à sua posição original. 

Assim, um homem de bem, destes que sempre fazem excessiva rotação à esquematosa benevolência intestina, uma vez munido de um putoscópio, pode medir com precisão qualquer mudança em sua orientação, exceto rotações que ocorram no plano de giro dos discos do putoscópio. Isto explica de uma maneira singular por que um Putocrata, ao lançar mão de seu Putoscópio, necessita obrigatoriamente de dois outros putoscópios institucionais perpendiculares de modo a integralizar a possibilidade de detecção de variações na orientação.

É interessante registrar que um putoscópio é indicado e usado como auxiliar em navegação de helicópteros radio controlados, corrigindo automaticamente o curso até seu completo desaparecimento.

PS - As agências de segurança terrestre, aeronáutica, náutica, institucional, suprema, executiva e as naves espaciais utilizam um aparelho baseado no putoscópio conhecido como putoscópio humano para o treinamento de putocratas. O putocrata utiliza o peso das malas como motor e tem a sensação de "driblar a gravidade da cafetinagem explícita". Somente depois de estar apto ao Putoscópio humano o putonauta estará pronto para fazer golpes especiais.

É isto aí!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A rede neural do poder ou quem mandou fechar a zona?

Naquela noite o Rei não foi feliz na relação plena com a fidalga Karmelytta Djackeline, sua concubina predileta. Na hora daquele enlace perfeito, o momento no qual o supremo encaixa, mata no peito, julga, processa e regozija para delírio plenário foi interrompido pelo chamado urgente do camareiro para atender ao Consul do Reino da Águia, cujo bom senso o impedia de deixar esperar. A reunião durou cerca de três horas. Ao voltar a amada dormia.

Mal amanheceu o dia, ainda de péssimo humor e ainda sob efeito da pílula azul, mandou chamar o Grão-Duque.

- Pois não, Vossa Majestade Imperial!
- Meu filho, aumente os impostos, amplie as prisões, corte os gastos com saúde e educação.
- Sua ordem será atendida, Vossa Majestade Imperial.

O Grão-Duque saiu furioso - que merda, papai me colocou num tremendo rabo de foguete. Vou ficar mal na fita com as meninas das vilas. Puta que o pariu! Já sei!! Comandante, manda trazer aquela bosta daquele Marquês aqui.
- Quando, Vossa Alteza?
- Agora, Comandante, agora!

- Pois não Vossa Alteza Imperial?
- Marquês, sei que Vossa Graça sempre foi fiel ao Rei e ao Reino.
- Perfeitamente, Vossa Alteza Imperial, e o faço com lealdade e prazer.
- Meu pai, digo, Vossa Majestade Imperial, o Rei, determinou que Vossa Graça Imperial, o Senhor Marquês,  aumente os impostos, amplie as prisões, corte os gastos com saúde e educação e aumente os juros de financiamento às empresas privadas.
- Farei imediatamente, Vossa Alteza Imperial.

O Marquês saiu furioso - que merda, quem este filhinho de papai pensa que é? Me colocou num tremendo rabo de foguete. Vou ficar mal na fita com os bofes e regalos do platô. Puta que o pariu! Já sei!! Coronel, manda trazer aquela inútil daquele Conde aqui, e quero que seja agora!

- Pois não, Vossa Graça Imperial?
- Nobre Conde, saiba que tenho muito apreço por Vossa Excelência que em muito tem contribuído para o engrandecimento do Reino.
- Agrada-me saber proferido diretamente por Vossa Graça Imperial. A que devo a honra?
- Vossa Alteza Imperial, o Grão-Duque determinou que Vossa Excelência, o Senhor Conde,  aumente os impostos, amplie as prisões, corte os gastos com saúde e educação e aumente os juros de financiamento às empresas privadas e reforce a censura aos meios de comunicação.
- Assim o farei, Vossa Graça e nobre Marquês.

O Conde saiu furioso. Puta que o pariu, quem este veadinho pensa que é? Mas que merda. Me colocou na lama agora. Como vou ficar com as donzelas e viúvas do Reino, a quem presto apreço e atenção íntima?  Hummm, já sei, vou passar este abacaxi para aquele inútil do Visconde. 

- Capitão da Guarda, traga aqui imediatamente Sua Graça, o Visconde.

- Pois não Vossa Excelência?
- Nobre Visconde, Sua Graça Imperial é o equilíbrio da Corte diante do povo e do clero.
- Muito gentil de Vossa Parte, Vossa Excelência.
- Então, mais uma vez contamos com vossa determinação juramentada para cumprir com a ordem da Vossa Graça Imperial, o Marquês. Por determinação imperial, Sua Graça, nobre Visconde, deverá aumentar os impostos, ampliar as prisões, cortar os gastos com saúde e educação, aumentar os juros de financiamento às empresas privadas, reforçar a censura aos meios de comunicação e triplicar o imposto previdenciário do empregado.
- Assim será feito, Vossa Excelência; assim será feito.

O Visconde saiu dali revoltadíssimo. Mas que desgraça. Quem este animador de velório para catar viúvas pensa que é? Que sacanagem. Que coisa horrível. Como vou continuar bancando os meus cassinos ilegais? É muita pressão. Pressão rima com Barão - é isto - Tenente, convoque imediatamente Sua Senhoria, o Barão.

- Pois não, Vossa Graça Imperial, nobre Visconde?
- Senhor Barão, serei franco e direto com Sua Senhoria, pois trata-se de um delicado assunto de Estado que depende única e exclusivamente de uma atitude sua.
- Estou pronto, Visconde, Vossa Graça Imperial sabe que sempre estou pronto.
- Ótimo, Sua Senhoria está a partir deste momento sob a obrigação de promover a Lei e a Ordem do Reino, já infestado de parasitas pseudo-intelectualoides e conspiradores descrentes da fé no Rei. Desta forma, para mostrar quem de fato manda e governa, deverá aumentar os impostos, ampliar as prisões, cortar os gastos com saúde e educação, aumentar os juros de financiamento às empresas privadas, reforçar a censura aos meios de comunicação, triplicar o imposto previdenciário do empregado e ampliar de 40 para 60 horas trabalhadas por semana.
- Mais alguma coisa, Vossa Graça Imperial?
- Não, mas faça isto imediatamente, entendeu? Imediatamente.

O Barão saiu dali com um discreto sorriso nos lábios, passou no Palácio das Hortências onde se hospedava a fidalga Karmelytta Djackeline. e aguardou a visita secreta de Sua Alteza Imperial.

- Vossa Majestade Imperial! estou ao seu dispor.
- Então, Barão, vamos ao que interessa.
- Aumentaram a dose da ordem, Vossa Majestade.
- Hummm, entendo. Manda fechar a Zona e prender as moças.
- Todas, Vossa Majestade?
- Todas.
- Por quanto tempo, Vossa Majestade?
- Até irem reclamar ao Bispo, Barão, depois solta.
- Assim será, Vossa Majestade.

No aconchego da cama da amada, o rei sussurrou-lhe
- Sabe Lytta, só mais um pouco e tudo isto será seu ...

É isto aí!

sábado, 14 de outubro de 2017

Os lacerdinhas voltaram

Os lacerdinhas voltaram a este insignificante reino. Bastou uma palavra para que a turba ressurgisse. Os bolso minions, uma cópia ridícula e mal formulada dos lacerdinhas com certeza não sabem nada sobre o assunto.

Tudo começou no início da  década de 1960, no pré-golpe. Bananaland era toda circundada por praças com chafarizes e árvores de uma espécie de Ficus, que formavam um conjunto harmônico e bucólico ao paraíso tropical. Naquela época já ocorria uma praga de enorme poder de oratória, inteligente, educado, culto, mas violentamente ferino contra as reformas que Bananaland precisava para se desenvolver. 

Desta forma, dado à sua virulência, o povo, na sua sabedoria, batizou de lacerdinha um pequeno inseto asiático, minúsculo, que se tornou uma praga nacional ao infestar as praças da pátria amada.

Vinham em bandos, cegavam todos de maneira que não se enxergava nada por um tempo. Só depois de vinte anos é que as pessoas puderam voltar a ver as praças desertas, as ruas desertas, a vida deserta.

O Reino da Pitangueira não tem barões, viscondes, condes, marqueses, duques e arquiduques. Não tem banco gerador de riquezas estranhas e pobrezas miseráveis, não tem incentivos à violência, à ignorância, ao mau caratismo e outras coisas ruins como ração de lixo para pessoas com fome, não tem pessoas supremas, nem justiceiros mascarados.

Então, com qual finalidade estes lacerdinhas aparecem aqui? Daqui a alguns dias, quando passar a banda com a fanfarra que está sendo domesticada para animar os bailes das múltiplas ilhas fiscais dos amigos, tornarão a desaparecer. Isto talvez seja um movimento feito como o de algumas espécies de abelhas e formigas que sempre antes de terremotos e vulcões abalarem a terra, modificam seu comportamento. Talvez ... quem sabe? talvez ... nada se cria, nada se transforma, tudo se copia para ficar sempre da mesma forma

É isto aí!

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A perigosa caixa preta dos algoritmos e a campanha eleitoral de 2018

Alto lá
Este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
Autor : Renato Leite Monteiro
Fonte : El País

A perigosa caixa preta dos algoritmos e a campanha eleitoral de 2018

Lei libera propaganda política no Facebook enquanto empresa enfrenta escândalo nos EUA, Brasil não dispõe de regra, como europeia, que exigirá informações sobre os algoritmos.

A ProPublica, um instituto de jornalismo independente estadunidense que já ganhou diversos prêmios por seu trabalho investigativo, recentemente noticiou que softwares utilizados para ajudar magistrados dos Estados Unidos a calcular penas com base na probabilidade de os acusados cometerem novos crimes tinha um grave problema: se o indivíduo era negro, o algoritmo concluía que, em algumas situações, este tinha chances quase duas vezes maior do que um branco de cometer novos ilícitos. Com base neste cálculo, juízes condenaram negros a penas bem maiores do que indivíduos brancos com antecedentes e histórico de bom comportamento similares. Havia um outro grande problema: ninguém sabia que critérios eram utilizados para realizar o cálculo de risco. Devido a essa falta de transparência, em breve um caso será revisto pela Suprema Corte Americana porque o acusado afirmou que seu direito ao devido processo legal foi violado quando lhe foi negado o direito a entender o funcionamento do algoritmo.

Um outro estudo mais recente mostrou que algoritmos baseados inteligência artificial aprenderam, após analisar milhares de fotos, que se existe uma imagem com alguém numa cozinha, em frente a um fogão, deve ser uma mulher, reforçando estereótipos e causando discriminação. Em outro caso, um plano de saúde concluiu que determinado consumidor teria maiores chances de ter problemas cardiovasculares ao inferir que este seria obeso por possuir um carro grande e não ter filhos. E se os dados estiverem incorretos? E se fosse um homem na cozinha? E se o carro tivesse sido um presente? Como lidar quando os dados não são precisos?

Este são apenas exemplos, por mais assustadores que sejam, de como as nossas vidas hoje são controladas por algoritmos que muitas vezes reproduzem preconceitos, estereótipos e contribuem para aumentar a assimetria de poder entre cidadãos, o estado e empresas. Bancos, financeiras, agências de empregos, seguradoras, cidades inteligentes, carros que se autodirigem, todas são áreas da sociedade que dependem ferozmente de ADM (Automated Decision Making), algo como algoritmos que tomam decisões automaticamente.

Frank Pasquale, hoje um dos maiores especialistas no assunto, defende que vivemos numa Black Box Society, em alusão a opacidade intrínseca dos algoritmos que controlam diversos aspectos do nosso dia-a-dia e muitas vezes definem como, e se, exerceremos alguns dos nossos direitos mais básicos, mas que não permitem conhecer como se dá o seu efetivo funcionamento. Mas antes, é necessário entender o que são algoritmos.

A necessidade de transparência nos algoritmos é premente ante cenários quase apocalípticos onde processos decisórios automatizados superarão o processo decisório dos humanos

Algoritmos são sequências de instruções programados para realizar uma ou várias tarefas. Normalmente, coletam dados de fontes diversas que funcionam como variáveis que combinadas levam a um resultado. Em um programa de computador, é um código, linhas de comando, escritas por programadores. Mais recentemente, algoritmos de aprendizagem automática passaram a escrever, sozinhos, outros algoritmos por meio de inteligência artificial, o que, por vezes, pode levar a resultados totalmente inesperados, que não poderiam ser antevistos pelos humanos que desenvolveram o código original. Esse código é, pela maioria das legislações do mundo, proprietário. Isso significa que ele pertence a uma empresa, pode ter um grande valor de mercado e ser considerado um segredo de negócio. O acesso a ele por terceiros pode significar uma grande desvantagem competitiva. E aqui reside um dos maiores embates que impede a efetiva transparência dos algoritmos.

Os que defendem, como Pasquale, que as empresas deveriam revelar o código de seus algoritmos a fim de permitir que a sociedade os entendessem e auditassem, visando evitar práticas discriminatórios, encontram barreiras na própria legislação nacional e internacional que conferem as companhias quase que um escudo, sob as bandeiras da propriedade intelectual e da livre concorrência, que impede conhecer os detalhes que levam os algoritmos a estas tomadas de decisão.

Na União Europeia, o Google vem sendo acusado de utilizar o seu algoritmo para favorecer seu próprio serviço, mostrando as ofertas do Google Shopping como as mais relevantes, o que, levando-se em consideração posição quase que dominante o buscador, vem sendo considerada uma prática monopolística. Sob o argumento do abuso de poder de dominância, a empresa foi multada em quase 2,5 bilhões de Euros. Algumas das principais discussões do processo envolviam a necessidade de transparência dos algoritmos para aferir se a companhia realmente favorecia seus serviços, o que, para infortúnio de pesquisadores, não aconteceu.

Outros, advogam a necessidade de uma transparência balanceada, que não impacte segredos comerciais, mas que permita não só aos consumidores, mas a sociedade como um todo, auditar algoritmos para verificar se estes não estão, de fábrica, imbuídos de práticas discriminatórias.

Desse contexto nasce a ideia de Accountability by Design, que, por meio de processos indiretos, tenta coadunar os interesses da sociedade em fiscalizar práticas baseadas em algoritmos sem que seja necessário ter acesso direito ao seu código fonte e revelar práticas comerciais. Testes padrões como os hoje realizados em veículos para identificar se estes estão em conformidade com o arranjo regulatório nacional e os padrões internacionais definidos podem ser desenvolvidos, similar ao que hoje já existe para calcular riscos aceitáveis de impacto ao meio ambiente quando da construção de obras. Mas, infelizmente, até mesmo essa solução tem se mostrado ineficiente.

Em mais um escândalo envolvendo algoritmos, a montadora Volkswagen alterou artificialmente o software de seus veículos para disfarçar a quantidade de poluentes emitidos durante testes para poderem ter acesso a determinados mercados. A complexidade do código embarcado era tal que este conseguia detectar quando estava sendo testado para que somente durante o procedimento o carro emitisse poluentes dentro dos limites permitidos pela legislação. Ou seja, para evitar acesso ao código foram utilizadas outras metodologias de verificação, mas que foram alvo de fraudes gravíssimas que levaram a empresa a multas astronômicas, enaltecendo a necessidade de se encontrar formas alternativas e eficientes para abrir as caixas pretas.

Facebook e a eleição de 2018

No Brasil, essas questões começam a ser discutidas, principalmente no contexto de fake news e propaganda eleitoral. Estudo da FGV mostra que contas automatizadas motivam até 20% de debates em apoio a políticos no Twitter, impondo riscos à democracia e ao processo eleitoral de 2018 por meio de um discurso ilegítimo e parcial. A polêmica aumentou com a promulgação da lei da reforma política, que proibiu, no seu art. 57-C, a “veiculação de qualquer tipo de propaganda eleitoral paga na Internet, excetuado o impulsionamento de conteúdos, desde que identificado de forma inequívoca como tal e contratado exclusivamente por partidos, coligações e candidatos e seus representantes”.

Afora a discussão se o impulsionamento de conteúdo poderia ser efetivamente considerado conteúdo pago, fica a dúvida de como os algoritmos que irão impulsionar as propagandas funcionam. Essa desconfiança tem origem nas recentes declarações feitas por Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, admitindo que a rede social foi, de alguma forma, manipulada durante as últimas eleições americanas por atores russos que tinham claro interesse em eleger o atual presidente, Donald Trump. Isso levou a empresa a enviar ao Congresso registros de milhares de compras de publicidade feitos por russos e a assumir um compromisso de mais transparência com relação a como a publicidade comportamental da sua rede social funciona, inclusive o impulsionamento. Como esse posicionamento será implementado no Brasil ainda é uma incógnita, principalmente por não haver regras que assegurem a transparência algorítmica, algo que poderia ser aprendido com o velho continente.

Desde da aprovação da nova GDPR (Regulação Europeia de Proteção de Dados), que entrará em vigor em maio do próximo ano, representantes de diversos setores tem clamado a positivação de um tal direito a explicação das decisões tomadas por sistemas inteligentes e automatizados, baseado no direito à transparência no tratamento de dados pessoais. O texto determina que um indivíduo tem o direito a obter informações suficientes sobre um algoritmo, como o seu funcionamento e possíveis consequências, que o permitam tomar uma decisão racional autorizando ou se opondo ao uso dos seus dados pessoais. Em outras palavras, a GDPR tentou achar um meio termo para harmonizar direitos e interesses, mas não determinou o acesso ao código dos algoritmos. Uma tônica diversa pode ser encontrada em várias leis que visam regular o tratamento de dados pessoais, como os projetos de lei atualmente em discussão no Brasil.

O Brasil, ainda, não dispõe de uma lei que outorgue efetivos instrumentos que permitam ao cidadão algo similar ao presente no contexto europeu. Todavia, projetos em trâmite no Congresso Nacional recorrem a princípios que visam limitar que dados serão coletados para compor os algoritmos, valendo-se de critérios de proporcionalidade e transparência para evitar práticas discriminatórias. Esses projetos obrigam ainda que sejam implementadas medidas protetivas à privacidade e outras liberdades fundamentais desde o momento da concepção do serviço, durante o seu desenvolvimento e a sua oferta ao mercado. Princípios éticos vêm sendo discutidos em larga escala e são cada vez mais adotados na construção desses algoritmos. No entanto, quem irá efetivamente fiscalizar essas melhores práticas ainda não se sabe.

Diante de tudo isso, a necessidade de transparência nos algoritmos se torna cada vez mais premente diante de cenários quase apocalípticos de um futuro onde processos decisórios automatizados e inteligência artificial dominarão, e superarão, o processo decisório natural do ser humano. Desde carros que sem motoristas, robôs e máquinas que substituem profissões comuns, geração automática de notícias, até mesmo engenharia artificial e ambientes bélicos, quase nenhum setor da sociedade estará imune aos efeitos que antes somente eram pensados, e possíveis, em obras de ficção científica. Caso a caixa preta não seja aberta, poderemos nos tornar reféns da nosso própria evolução.

Renato Leite Monteiro é especialista em privacidade e proteção de dados. É professor de direito digital do Mackenzie e da FGV/SP.

A Inteligência Artificial e outras coisas aí

Realdoll sex robot
Eu tinha esquecido que determinadas palavras não podem ou melhor, não devem ser postadas nas redes sociais, como este espaço, por exemplo. Dia destes bastou escrever uma palavra que relaciona o horror às coisas tristes e feias praticadas pelos seres humanos, as ações horror  istas, e pronto. No dia seguinte algumas centenas de visitas para checagem in loco. Claro que estas visitas são na sua maioria feita por inteligências artificiais que sondam o ambiente, e apenas uma ou outra vem de supostos humanos que avaliam o contexto, sem sequer dominar a fina flor do lácio, inculta e bela.

Outro dia o líder russo afirmou que quem dominar a inteligência artificial vai dominar o mundo (aqui). E esta coisa está aos poucos desumanizando o mundo e humanizando sistemas binários. Neste ano, a 50ª edição da feira de eletrônica de consumo, em Las Vegas, promovida pela "Consumer Technology Association" deu uma balançada no mundo - não estamos mais sós enquanto seres pensantes.

Você já imaginou se deparar com um computador cognitivo que entende expressões humanas, sejam elas textuais, verbais ou visuais. Não só isso, que ele também consiga compreender a intenção e qual o contexto do problema que lhe está sendo endereçado, reconhecer padrões a partir de exemplos de feedbacks e interagir com humanos de uma forma bastante natural? Já existe - e está além da nossa compreensão entender seu processamento - é o Watson-IBM .

Na minha limitação de computadores, o Watson é uma pessoa não-humana que fala, pensa e decodifica as situações à sua volta. É só questão de tempo para estar num boneco de estrutura física humana - aí a coisa vai ficar interessante. Não será surpresa se em poucas décadas estas "criaturas" serem capazes de gerar seus descendentes com memória emocional. Assustador. 

Enquanto isto caminha a humanidade entre o céu e o inferno em Bananaland numa suposta eleição em 2018, cuja armação já se encontra na forma da lei feita por e para o golpe:

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/11/opinion/1507749770_561225.html



É isto aí!

domingo, 8 de outubro de 2017

Sobre palavras, deuses e maldições

Um poemeu há muito guardado:

Palavras
bem ditas
nas lavras
malditas
não ecoam
implodem
palavras
mal ditas
nas lavras
benditas
incendeiam
as aras
e rompem
a esperança.

É isto aí!

sábado, 7 de outubro de 2017

Gandhi e o ódio canalizado


Alto lá, este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
Livro - Gandhi: O Despertar dos Humilhados
Autor - Jacques Attali
Editora - Novo Século


As mandíbulas da morte:

Gandhi é odiado pelos muçulmanos por ser hindu; é detestado pelos hindus porque defende muçulmanos e intocáveis. É desprezado pelos intocáveis porque lhes nega um estatuto particular. Em 28 de junho, manifestantes tentam descarrilar o trem que faz o trajeto Deli a Poona.
Ele (Gandhi) lança a frase – “O homem vive nas mandíbulas da morte.”¹

"Reconheço que estou totalmente indefeso diante da violência quando ela é feita pelos nossos; e, enquanto ouço falar sobre ela, um médico tomando o meu pulso logo constataria a aceleração dos batimentos cardíacos do meu coração. Tenho necessidade de alguns instantes, consagrados à espera da ajuda de Deus, para que o meu coração recupere um ritmo normal. 

Sou incapaz de remediar essa debilidade. Eu a alimento. Essa emotividade me permite continuar sendo apto a servir e a guiar, a permanecer humilde e guardar a confiança em Deus. Somente Ele sabe quando estarei suficientemente contrariado e comovido, pelos nossos atos de violência, para que se justifique um jejum temporário ou permanente. É a última arma do satyagrahi contra aqueles a quem se ama."  - Mahatma Gandhi (1869 - 1948) 

¹ Texto publicado online

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Universidade da Demolição Nacional - UDN



 Atenção para a chamada.

Professor, qual é esta matéria?

Fora.

Mas eu só perguntei ...

Fora, ou chamo os seguranças. Alguém mais tem alguma pergunta? - Muito bem, à chamada:

Professor, desculpe a pergunta, mas por que não tem mulher aqui?

- Segurança, pode levar - é ativista esquerzoide detectado em ato falho. Mais alguém? Bem, vamos voltar ao que interessa à Glande Pátria:

- Não seria Grande, professor? Outro comunista!! Seguranças, sem dó, conduzam o terrorista. Mais alguém? Pois bem, vamos à chamada em nome da Pátria:

- Demolidor da Construção Civil? - Presente.

- Destruidor da Engenharia Nacional? - Aqui!

- Desarticulador de oposição? - Pronto!

- Aniquilador de Universidade Públicas? - Presente, presente, presente!!!!

- Destituidor de honra? - Aqui!

- Destruidor da Assistência Social? - Foda-se, aqui!

- Exterminador da Previdência? - É nois na fita, teacher!!!

- Zelador da Moral, da Família, da Tradição e da Propriedade? - Graças a deus, aqui, senhor!

- Exterminador do Petróleo? - Sem falta, aqui!

- Maestro da Falsa Bandeira? - Cá no canto!

- Economês enrolation? - Pronto!

- Produtor de falsidades ideológicas? Aqui, ali, lá, por aí ... - Ok!

- Herói dos Trapaceiros? - Presente!

- Líder de bancada dos Vigaristas? Parece que sou eu, professor ... - Ok!

- Patife dos Vendilhões da Fé? Em nome da verdade, Jotacê cátoueu e agora cá tô eu! - Ok!

- Chefe do Traidores da mãe gentil? - Data venia, professor, o título é pouco nobre, mas C'est moi!

- Democracia? ... Democracia???
  Está na UTI gastando dinheiro público para mais uma obra inútil, professor, mas tomara que morra logo.
- Quem falou isto? Ah, foi o senhor, desculpa, senhor, está certo senhor, obrigado senhor!

- Destruidor da Corrupção? ... Destruidor da Corrupção???? Cadê o destruidor da ...
   Como o senhor é ingênuo, professor. Até hoje não sabe que ele só entra na foto da aula inaugural e  depois volta a deitar no berço esplêndido?
   Quem falou isto? Ah, desculpe Mister, sorry, desculpe ... sorry ...

Senhores, agradecemos a preferência pela nossa instituição honrada, séria, de moral ilibada, bela, recatada e do lar. Quero transmitir que todos vocês até aqui fizeram um excelente esforço de aprendizado, e agora, para coroar com êxito este curso lindo, maravilhoso e soberbo, vamos passar para a aula de hoje, cujo tema será - "Como continuar enterrando na areia e atolando atoladinho nos patos amarelos, sem que gemam ou sintam dor" ...

É isto aí!

A tragédia de Santa Maria-RS e as Mulheres de Conforto

The doll test
Subi a Colina do Bom Senso, local aprazível do reino da Pitangueira. Fiquei ali por um tempo interminável, refletindo sobre a vida da vida da vida. Aprendi que no final sempre optamos pelo que já foi escolhido, e acabei pensando nestas e outras coisas:

- Janaúba-MG 
Tragédia. Dor, tristeza, lamento, amargura, impotência e pesar. Lembro da tragédia Santa Maria-RS, a quase cinco anos, onde 242 jovens faleceram, outros 600 tiveram sequelas físicas e/ou psíquicas e centenas de pais tiveram a pena de prisão perpétua pela dor. 

- Las Vegas - USA
Tragédia. Dor, tristeza, lamento, amargura, impotência e pesar. Lembro da tragédia Santa Maria, a quase cinco anos, onde 242 jovens faleceram, outros 600 tiveram sequelas físicas e/ou psíquicas e centenas de pais tiveram a pena de prisão perpétua pela dor. 

- Catalunha - Espanha
 Tragédia. Dor, tristeza, lamento, amargura, impotência e pesar. Lembro da tragédia Santa Maria, a quase cinco anos, onde 242 jovens faleceram, outros 600 tiveram sequelas físicas e/ou psíquicas e centenas de pais tiveram a pena de prisão perpétua pela dor. 

- Yemen - Oriente Médio
A democrática Arábia Saudita desde 2015 destrói sistematicamente este pobre pais, em nome da liberdade. A guerra bloqueou as importações de alimentos, levando a uma fome que afeta 17 milhões de pessoas. A falta de água potável, causada por aqüíferos empobrecidos e a destruição das infra-estruturas hídricas do país, também causou o maior surto de cólera do mundo , com o número de casos suspeitos superiores a 700.000. Mais de 2.100 pessoas morreram desde que o foco começou a se espalhar rapidamente no final de abril. 

Lembro da tragédia Santa Maria, a quase cinco anos, onde 242 jovens faleceram, outros 600 tiveram sequelas físicas e/ou psíquicas e centenas de pais tiveram a pena de prisão perpétua pela dor. 

Coreia - Ásia
Em 1910 o Japão invadiu a Coreia e dominou a península, escravizando a população. Durante a Segunda Guerra Mundial, os japoneses usaram a comida, a pecuária e metais coreanos e alistou 2,6 milhões de coreanos como força de trabalho escravo. 
Cerca de 723 000 escravos coreanos foram enviadas para trabalhar em territórios ocupados pelos japoneses no exterior. Em janeiro de 1945, os escravos coreanos eram cerca de 32% da força de trabalho japonesa. Em agosto daquele ano, quando os Estados Unidos lançaram bombas atômicas contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, cerca de 25% dos mortos eram coreanos (ninguém fala nisto pois é assunto proibido).

As mulheres coreanas na fase juvenil tornavam-se escravas sexuais dos japoneses, e tinham a alcunha de Mulheres de Conforto. estima-se que cerca de 200.000 destas moças foram assassinadas pelas diversas modalidades e prazeres pelos valorosos soldados japoneses da ocupação.

Terminada a guerra, os dois países que ganharam dividiram a Coreia e o que está aí hoje é resultado da destruição de um país que nunca foi ameaça ao mundo, apenas para atender interesses do mundo. A guerra promoveu a morte de milhões de civis a até hoje o mundo que os dividiu fomenta mortes.

Lembro da tragédia Santa Maria, a quase cinco anos, onde 242 jovens faleceram, outros 600 tiveram sequelas ora físicas ora psíquicas e centenas de pais tiveram a pena de prisão perpétua pela dor. 

Iraque, Sudão, Líbia, Síria, Afeganistão, América Latina, Carteis, tudo junto e misturado para apagar da nossa memória o preço que pagamos pela tragédia e pelas consequências de Santa Maria-RS.

É isto aí!


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Um texto de Tom Zé

Resultado de imagem para tom zé

Alto lá - Este texto não é meu
Confesso que Copiei e colei
Autor - Tom Zé
Onde: http://tomze.blog.uol.com.br/arch2008-11-30_2008-12-06.html

Exegese de TÔ FICANDO ATOLADINHA, Meta-Refrão Microtonal e Pluri-Semiótico

3) Pluri-semiótico:
O refrão de “Atoladinha” tem vários planos de significado:
a) em termos semânticos, o significado léxico já registrado em dicionário, que abarca o nível denotativo;
b) em termos pragmáticos, “Tô Ficando Atoladinha” desencadeia um novo significado, agora ambientado em um ato sexual. É o chamado nível conotativo dos significados deflagrados pelo uso.
* * * *
Depois desse passeio pelo denota e pelo conota, o refrão foge dessas classificações e vai reverberar no sentido do tato. E o tato já é outro código de sinais.
* * * *
Além disso, cria um signo contundente, quando numa sociedade misógina e preconceituosa, faz uma mulher assumir o comando de um ato sexual e chamar para si o direito e a conclamação do prazer.
* * * * 
De acordo com C. S. Pierce, o fundador da Semiótica, o conjunto de signos “To Ficando Atoladinha”, dentro das 10 classificações compostas e combinatoriamente possíveis das tríades piercianas, forma um legi-signo dicente indicial.
Considerando o contexto, eu talvez preferisse um sin-signo dicente indicial, porque o lugar objetivo onde se dá o encharcamento é o vestíbulo vaginal e a metáfora lancinante é mais exatamente uma metonímia – o tropo que estabelece a parte tomada pelo todo.

Estou exagerando? Se o exagero passa por sua cabeça, convoco o testemunho da dra. Carmita Abdo, diretora do Departamento de Sexologia da USP. Em pesquisa divulgada em outubro de 2004 a dra. Abdo revelou que, no próprio campus da USP, um dos bolsões mais civilizados do País, 68% das meninas de 15 a 25 anos revelaram não ter prazer no ato sexual. Alegaram que seus parceiros terminavam antes, não ligavam para o que acontecia com elas. e “com medo de parecerem depravadas ou prostitutas”, não tinham coragem de pedir mais, de pedir ao parceiro que as socorresse na frustração.

2) Microtonal

O canto microtonal era praticado pelos cristãos nas catacumbas de Roma, onde se reuniam os adeptos de uma religião católica ainda proibida no Império Romano. Depois da oficialização do credo, o papa Gregório, no início do século 7, proibiu a microtonalidade na Igreja e instituiu a escala diatônica, criando o cantochão ou canto gregoriano.

Essa escala diatônica serviria de base para toda a música ocidental. Até hoje somos prisioneiros desse dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó, com seus sustenidos e bemóis, tanto na música erudita quanto na popular.
Acontece que do ponto de vista da Física, entre um dó e um ré existem 9 comas, que se instituiu chamar quartos de tom e oitavos de tom.

Vale a pena dizer que para um violinista o dó # é diferente do ré bemol. Chegaram a ser construídos na Europa instrumentos de teclado que tinham uma tecla para o dó # e outra para o ré bemol. Depois, no século 18, veio o temperamento, que unificou os dois acidentes.

Muitos músicos e teóricos saíram a campo para dizer que não funcionaria, mas J. S. Bach tomou o partido da inovação. Para provar que dava certo escreveu o Cravo bem temperado.

Desde então a prisão da escala diatônica temperada dominou a música ocidental popular e erudita.
Agora defrontamo-nos com o inesperado.

Há duas exceções: o compositor erudito italiano Giacinto Scelsi e o funk carioca com o MC Bola de Fogo. O primeiro, escrevendo peças microtonais para orquestra e este, escrevendo Tô ficando atoladinha.

No caso de Atoladinha, trata-se de um achado muito simples. Na repetição obsessiva
Tô ficando atoladinha,
Tô ficando atoladinha ,
a cantora não muda diatonicamente a nota musical: num crescendo insistente, vai subindo obsessivamente quartos de tom, como a própria excitação e aquecimento do assunto requer.

1) Meta-refrão

Ora,uma peça tão bem achada chama a atenção e põe em questão todos os refrões e toda a arte de compô-los.

Portanto, quando se acusa o meu “Estudando a Bossa” de ser influenciado pelo funk carioca, não se trata de uma aberração: em aspectos mais profundos e em momentos de exceção, o funk tem laivos criativos tão altos como a bossa nova."

Por: Tom Zé

domingo, 1 de outubro de 2017

Metade (Adriana Calcanhotto)

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim
Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será que você está
Agora?

Adriana Da Cunha Calcanhotto

Um coração estúpido


Tenho um coração
estúpido
entupido de paixões
estrépitas
Tenho uma razão
lúcida
só uma
por que as outras
são trépidas
entupidas de razões
opacas.

É isto aí!

Milton Nascimento e Pena Branca & Xavantinho (1987)